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Não é falta de identificação, é recalque

A rejeição ao rap feminino por “falta de identificação” não é coincidência, mas um recalque machista que reflete as desigualdades de gênero na música. 

Por Yasmim Paulino

Publicado em 20 de março de 2026

Há cerca de uma semana, algumas artistas do rap feminino se tornaram alvo de críticas e julgamentos no X, rede social que já foi o Twitter. NandaTsunami, Ajulliacosta e Duquesa foram alguns nomes constantemente referenciados na rede.  

 

A maioria das críticas eram escritas por usuários homens com argumentos que tentavam deslegitimar a nova cena do rap feminino. Um desses comentários que ganhou fôlego e reverberou tem a ver com a identificação do público masculino. Em linhas simples, o comentário dizia que ouvintes homens não ouvem o rap feminino porque não sentem identificação com as letras das músicas. 

 

De fato, a maioria das músicas das minas são feitas para conversar diretamente com o público feminino, apostando na identificação. Mas quando se consome a arte em busca, exclusivamente, pela sensação de identificação, essa relação pode se tornar pura manutenção do ego. Nesse caso, do machismo.

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O grande problema com o argumento da identificação é que ele só é invocado quando se refere ao rap feminino. A fala soa mais como uma maneira de disfarçar o machismo  do ouvinte do que um distanciamento de narrativa. Tudo exala uma ausência de sensibilidade enorme sobre o universo feminino e a importância dessas mulheres estarem ocupando esse lugar. Dói no ego de alguns reconhecer que, talvez, a música realmente tenha sido feita para reverberar no outro. E isso não significa que ela seja ruim.  

 

Se invertemos os lugares, essa relação perde ainda mais o sentido. Durante anos, enquanto as mulheres não tinham espaço no rap, o público feminino nunca deixou de ouvir hip-hop por não se identificar com os artistas que narravam sobre suas vivências nas letras. Predominantemente, músicas escritas, produzidas e apresentadas para um público masculino. 

Além do contexto específico do rap brasileiro, é importante olhar para a situação em uma perspectiva macro da indústria. No final de 2025, o relatório Por Elas Que Fazem a Música, lançado pela União Brasileira de Compositores (UBC), destacou que as mulheres receberam apenas 10% do total de direitos autorais distribuídos no Brasil. Ou seja, não se trata apenas de um comportamento isolado, baseado em gosto musical, mas um reflexo da profunda desigualdade de gênero no mercado da música.

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Por que o rap feminino incomoda tanto?

Esse movimento de deslegitimação não é espontâneo. Os frequentes julgamentos soam quase como uma reação a um crescimento orgânico de uma nova fase do rap nacional, com um protagonismo escancarado de MC’s mulheres. Mas se tem algo que cresce na mesma proporção que comentários machistas é o público dessas novas artistas. 

 

Cresce em público e em popularidade, já que as novas MC’s têm construído uma verdadeira comunidade de ouvintes. Fiéis, constantes e alinhadas aos valores que as artistas anunciam. 

 

Essa recepção não é em vão. Durante muitos anos, esse público feminino se viu quase sem rappers de referências para acompanhar. Quando conquistou espaço, as artistas utilizaram o palco para usar a música como instrumento de provocação. A nova geração do rap provoca conversas desconfortáveis e direciona o público a olhar para demandas negligenciadas ou invisibilizadas. Artistas como Ajulliacosta, Ebony e muitas outras se posicionam, cobram mais políticas públicas e a garantia dos direitos das mulheres. Denunciam casos de violências que são constantemente acobertadas por artistas. Esse é o tipo de alinhamento político que muitos artistas masculinos do mainstream deixaram de manifestar ao longo dos anos e que muitos ouvintes sentem falta.

Esse movimento cria uma comunidade, que se transforma em uma rede de proteção, colocando a música como um lugar seguro, onde as mulheres podem ser ouvidas e acolhidas nas suas inúmeras batalhas diárias. 

 

O sexo é um desses lugares negligenciados que é frequentemente invocado nas rimas. Falar sobre sexo abertamente em uma música é um ato em busca de emancipação por meio da narrativa.

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NandaTsunami, uma das artistas representantes dessa nova geração usa e abusa do tema. Em um dos seus mais recentes hits, P.I.T.T.Y, em um tom de deboche e piada diz: “Por que vocês se incomodam que a gente fale de buc*ta? Tipo, mano, vocês são muito esquisitos”. De maneira lúdica, a artista brinca com essa implicância imatura de muitos homens em relação ao que essa nova geração de mulheres no rap tem a dizer. É um distanciamento e, no final, um recalque por não serem mais os protagonistas da narrativa, dos palcos e do movimento hip-hop.

 

É claro que a mensagem não é a de que todos devem amar o som dos novos nomes do rap nacional, mas argumentos como esse apenas reforçam que o problema está longe de ser apenas sobre identificação.

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Yas Paulino

Sempre soube que iria trabalhar com arte. Cheguei a mergulhar no teatro, audiovisual e na música, até encontrar meu lugar na comunicação.
Desde então, tenho utilizado todos os formatos para criar conversas sobre música, cultura e comportamento.

Se você também é um curioso sobre esses temas e ama descobrir novos sons, pode me encontrar em texto, podcast e vídeo pelas redes. ;)

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