
“Carta aberta”, do BK: um diálogo com uma geração em busca de direção
Por Carol Almeida
Publicado em 15 de Janeiro de 2026
Quando BK’ lançou ICARUS (2022), o público rapidamente identificou “Carta Aberta” como uma das peças mais sensíveis do disco. Em meio a rimas de impacto, metáforas espirituais e referências ao próprio caminho, o rapper constrói uma espécie de conversa íntima consigo mesmo, uma que, curiosamente, acabou ultrapassando o rap e chegando até ao esporte, quando o atleta olímpico Marcus D’Almeida revelou usar versos da faixa como mantra em momentos decisivos.
O que poderia ser apenas mais uma faixa reflexiva tornou-se um ponto de apoio emocional para quem lida com pressão, ambições e dúvidas.
A carta de BK’ e a construção do próprio caminho
Criado no Catete, no Rio de Janeiro, BK’ construiu sua trajetória costurando vivências da juventude periférica, estudos estéticos e maturidade lírica. Antes de ser conhecido, dividiu-se entre trabalhos formais e a escrita de suas primeiras letras; tornou-se referência na cena com Castelos & Ruínas (2016), um marco de sensibilidade e consciência social no rap brasileiro. “Carta Aberta”, seis anos depois, mostra o salto de quem já viveu ascensão, críticas, responsabilidades e a cobrança de se superar.
A faixa é estruturada como um monólogo, ou melhor, uma correspondência interna. Quando BK’ questiona “Quando é ego? Quando é ambição?”, ele expõe um conflito universal: como crescer sem perder o eixo. A poesia do rapper combina espiritualidade (“que ela sempre foi bússola”), instabilidade emocional (“por dentro a tempestade”) e resiliência (“tanta saudade que não cabe mais no peito”). Esse trânsito entre fragilidade e firmeza sustenta não só a força artística da música, mas sua relevância cultural.

Vulnerabilidade como experiência geracional
A música não entrega respostas prontas, ela expõe ruídos internos. Ao admitir erros, saudade, insegurança e a dificuldade de corresponder às expectativas, BK’ cria um território onde o ouvinte se reconhece. É o que explica sua ressonância entre jovens que vivem o peso da performance constante, seja em redes sociais, seja em projetos de vida marcados por incertezas econômicas e emocionais.
Se a música é sobre BK’, ela também é sobre qualquer um que precise de direção. A noção de que “toda escolha é ponto de partida” ressoa com ouvintes que sentem medo de errar. A ideia de que a intuição funciona como bússola, ainda que sob tempestades, ecoa em quem passa por transições inesperadas. E a frase que virou refrão emocional (“entre passos e tropeços”) sugere uma ética da imperfeição: caminhar também é perder o passo.
Da confissão à autoafirmação
A segunda metade da faixa muda de temperatura. O tom introspectivo abre espaço para afirmação, um retorno à tradição do rap como espaço de orgulho e postura. BK’ revisita sua caminhada (“eu não sou mais aquele moleque”), reivindica maturidade e se coloca, sem modéstia, como um dos nomes centrais da sua geração. Essa virada não contradiz a vulnerabilidade anterior; ela a completa.
Do ponto de vista narrativo, é como se a carta que começa cheia de dúvidas terminasse com a assinatura de alguém que finalmente se reconhece. A metáfora é simples, mas contundente: não é preciso escolher entre sensibilidade e força. E a vida no seu correr mostra que é possível coexistir com as duas.

A carta que vira espelho
A força de “Carta Aberta” não está apenas na escrita. Está no momento histórico. Jovens brasileiros vivem sob camadas de instabilidade: econômica, emocional, social e digital. Entre crises, metas inalcançáveis e o esgotamento de sempre “performar bem”, letras como essa funcionam como pequenas pausas de realidade, lembretes de que tropeços fazem parte da estrada.
BK’ não entrega um manual, mas deixa pistas: intuição, imperfeição, autoconhecimento e coragem de enfrentar a própria biografia. E talvez seja por isso que a música continue crescendo, aparecendo em contextos tão distintos quanto o esporte, as redes sociais e a vida cotidiana de quem busca um norte.
No fim, a carta é aberta porque não é só dele. É de todos os que, entre passos e tropeços, ainda procuram a própria voz.




