
Denzel, Spike Lee & Racionais
O Plano Perfeito x Eu Sou 157
Por guilérme
Publicado em 12 de Dezembro de 2025
Introdução e Malcolm X (1992)
A primeira vez que Denzel e Spike Lee trabalharam juntos foi em 1990, no filme Mo' Better Blues, onde Denzel interpretava um talentoso trompetista do Harlem. A segunda parceria aconteceu em Malcolm X (1992), filme que retrata a biografia de Malcolm X.
Sua infância; o período na contravenção e no cárcere — resultado da vida como contraventor; sua conversão ao Islã enquanto estava detido; sua importante participação como membro ativo da Nação do Islã; sua conturbada saída da organização; a peregrinação a Meca; e, por fim, sua morte são temas retratados nessa película, que tem pouco mais de duas horas de duração.
Denzel entregou uma atuação memorável, digna de aplausos e condecorações.
Al Pacino, Oscars e meu VASTO conhecimento em cinema
Na 65.ª cerimônia do Oscar (1993), mesmo após sua espetacular performance em Malcolm X, Denzel foi preterido por Al Pacino, premiado por sua atuação em Perfume de Mulher, também lançado em 1992.
Veja bem: EU NÃO ENTENDO NADA SOBRE CINEMA… mas, graças ao livre-arbítrio, nada me impede de comentar como se soubesse!
Eu já ouvi a seguinte teoria em algum lugar, do qual não me recordo, mas com a qual concordo, e que diz o seguinte:

O “problema” da estatueta ter sido entregue a Al Pacino naquele ano é que, em 1993, o real merecedor era Denzel. Por falta de uma expressão melhor, a premiação de Al Pacino naquela ocasião nos traz a sensação de que aquele era seu “Oscar de consolação”. Mesmo após interpretar Michael Corleone na trilogia O Poderoso Chefão (1972, 1974 e 1990) e, posteriormente, Tony Montana em Scarface (1983), o ator havia sido repetidamente negligenciado pela Academia — dita especializada — nunca tendo vencido um Oscar até então. Assim, para “reparar” erros do passado, Al Pacino levou para casa sua primeira estatueta por Perfume de Mulher.
É claro que Al Pacino foi brilhante — como sempre — mas não foi tão brilhante quanto Denzel. Anos depois, Denzel seria novamente* e devidamente reconhecido pela Academia por sua atuação em Dia de Treinamento (2001).
*Em 1990 ele já havia vencido o Oscar pela atuação de Melhor Ator Coadjuvante no filme Tempo de Glória (1989).
O Plano Perfeito (2006)
Em 2006, o duo nos entregou mais uma ótima peça: O Plano Perfeito.
Na trama, Denzel interpreta o detetive Keith Frazier, que tem a “fácil” função de atuar como negociador de reféns durante um caótico assalto a banco. O líder — e mente por trás do grupo que tomou o banco — é Dalton Russell, interpretado pelo brabo Clive Owen.
O excelente roteiro, a direção precisa e um Denzel no auge de seu sex appeal marcaram aquele que foi, até então, o último projeto do duo Denzel x Spike.
Eu sou 157 - DVD Mil Trutas, Mil Tretas (2006)
Diferentemente do final inesperado de O Plano Perfeito, a música Eu Sou 157, do Racionais, traz outro vívido paralelo sobre a vida do crime, com um assalto a banco em destaque.
Em alguma outra oportunidade, eu já havia comentado sobre a imensa habilidade de Brown de criar um cenário cinematográfico real em nossa mente enquanto escutamos sua voz. Fórmula Mágica da Paz e Tô Ouvindo Alguém Me Chamar são bons exemplos disso. Além dessas duas, outra música em que somos conduzidos por um roteiro à la Spike Lee — mas narrado por Brown — é Eu Sou 157.
Em Eu Sou 157, o grupo narra a história completa de um assalto a banco. Aqui, usaremos como plano de fundo o DVD Mil Trutas, Mil Tretas (2006). Gravado numa noite fria do outono paulistano, o DVD foi uma das minhas primeiras introduções ao rap nacional e deixou o jovem eu, de 11 anos de idade, absolutamente boquiaberto.
Naquele que é considerado um dos momentos mais marcantes do rap nacional, Ice Blue entra no palco pilotando uma BMW RR amarela, com Brown na garupa. Cansado de cumprir ordem de patrão, Brown — com Ice Blue na contenção — narra o planejamento e a execução de um assalto a banco que tem tudo para dar certo: mó mamão. O cenário é composto por:
— Um “mão branca” — vigia do banco.
— Kazu, que, apesar de aparentar ser apenas um oriental dono de um carrinho de hot dog, tem um revólver .45 mocado dentro do carrinho.

O famigerado Kazu, Santos Futebol Clube e Casseta e Planeta
O nome citado por Brown é uma menção a Kazuyoshi Miura, jogador de futebol japonês que atuou no Brasil na década de 1980. Em 1986, Kazu veio jogar pelo Santos Futebol Clube, time do coração de Mano Brown. Ao voltar ao alvinegro praiano em 1990, marcou um gol no clássico contra o Palmeiras! Por conta dessa atuação contra o rival do Parque Antártica, Kazu ficou famoso.
A página Japão FC (@japaofcbr) trouxe essa pérola sobre o Kazu de Eu Sou 157 em fevereiro deste ano, em uma postagem no Instagram, embora sem ter certeza de que o Kazu citado por Brown na música seria mesmo uma referência ao jogador que atuou no Santos. Em um belo presente enviado pelos deuses do rap e também do futebol, o próprio Brown comentou na publicação, de certa forma confirmando a versão sobre a referência ao futebolista!

Uma última curiosidade sobre Kazu: atualmente, com 58 aninhos, Kazu é o jogador de futebol mais velho em atividade no mundo!
Diz aí, torcedor: tem vaga no seu time?
Só mais uma curiosidade sobre o Santos Futebol Clube e apelidos: o finado, caótico e maravilhoso (se você gosta desse tipo de humor, como eu) Casseta & Planeta gravou uma sketch com o Rei Pelé. Nela, Helio de la Peña interpreta um policial que aborda o Rei enquanto ele dirige seu carango conversível.
O Rei afirma que ele, Edson Arantes do Nascimento, é sim AQUELE Pelé. Mostrando uma clara semelhança com o tratamento dado aos amigos asiáticos de SP que passaram a ser chamados de “Kazu”, Hélio solta a seguinte pérola:
“Todo negão no Brasil é Pelé.”
Sensacional!

Voltando à música Eu Sou 157
Além do vigia do banco e de Kazu, a trama ainda é composta por:
— A loira, moça usada como isca, que fica de lero-lero com o guardinha para despistá-lo;
— Um outro vigia, mas esse faz parte do esquema e passa informações sobre o banco aos criminosos — ah, e ele também tá pesadão de AK-47 no banheiro;
— Rose, a pilota da fuga após o assalto.
Se você assistiu O Plano Perfeito, há uma cena em que Keith Frazier (Denzel) e Dalton Russell (Clive Owen) conversam ao telefone. No diálogo, a visão de Dalton após o sucesso do assalto é bem parecida com a dos assaltantes de Eu Sou 157:
‘Depois, só praia e maconha
Comer todas as burguesa' em Fernando de Noronha’
Sendo mais fácil planejar do que executar, o plano elaborado pelo grupo em Eu Sou 157 deu completamente errado.
Resumindo a trama: após uma sequência de acontecimentos que saiu do controle do grupo, no fim de tudo, um dos assaltantes morreu com um malote de dinheiro preso na porta giratória do banco.
“Um filho pra criar, imagina a notícia
Lamentável, vamo' aí, vai chover de polícia”
Dessa música, ficamos com a mensagem central trazida por Brown:
“Rapaziada, é melhor parar de ver novela da Rede Globo e Malhação, que isso aí não existe… O negócio é a realidade!
A liberdade se ganha um dia por vez, moro, irmão?”




