top of page
SaveClip.App_747762313_18364535023214112_1572829411832337655_n.jpg

Antes de Assinar Contratos

28 de outubro de 2026

Entre referências a animações, viagens interplanetárias e imagens de videogames, Nicius transforma experiências pessoais em um universo ficcional para falar sobre amadurecimento, autonomia criativa e a construção de uma carreira independente.

​

O que um artista precisa construir antes que alguém decida investir em seu trabalho? Para Nicius, a resposta passa pela música, mas também pela criação de uma linguagem própria, capaz de conectar diferentes formas de expressão e sustentar uma identidade artística.


Lançado em maio de 2026, Antes de Assinar Contratos (ADAC) aproxima o rap da ficção científica, dos videogames e das animações para abordar questões como dinheiro, reconhecimento, família e transformação pessoal. A narrativa se desenvolve entre planetas e personagens, mas parte de experiências concretas de quem a criou.


Nicius, nome artístico de Kayque Vinicius, é um artista independente do Rio de Janeiro, com raízes na Zona Oeste, entre Campo Grande e Guaratiba. Baterista e envolvido com o hip-hop há mais de uma década, também conhece os bastidores da indústria musical, com experiências ligadas à estratégia, ao marketing e à construção de projetos.

​

FOTO 3.jpg

Em ADAC, essas frentes se encontram em uma obra que ultrapassa o repertório musical. O projeto reúne curta-metragem, clipes, documentário, personagens e uma banda formada pelas pessoas que participam dos vocais. A proposta é construir uma narrativa que possa ser acompanhada por diferentes caminhos, em vez de limitar a experiência à sequência de faixas.


O título estabelece a questão central do disco: o que é possível realizar antes de assinar um contrato? Para Nicius, a resposta está na própria obra, uma demonstração de capacidade criativa e de produção independente. Mas, antes dessa afirmação, existe uma trajetória marcada pelo amadurecimento, pela tentativa de compreender a música como profissão e pela busca de
sinceridade em meio às exigências do mercado.

Uma carreira levada a sério

Quando perguntado sobre o que mudou entre a pessoa que era antes de levar a música a sério e quem é hoje, Nicius questiona a premissa. Para ele, a música nunca foi uma atividade sem importância, à espera de um momento em que pudesse ser tratada profissionalmente.


“Acho que nunca pensei em não levar a música a sério. Ela sempre foi séria para mim, às vezes até demais. Desde o primeiro momento em que fiz as primeiras músicas, já queria levar isso como carreira, mas só fui entender como fazer isso há uns cinco anos. Faço música desde os 15.”


Ainda assim, Nicius não consegue apontar com precisão o que mudou em sua personalidade.

 

“Hoje, ainda não consigo ver o que mudou. Sempre fui essa pessoa. Com certeza algo mudou, mas ainda não entendo o quê.”

​

Essa dificuldade de identificar as próprias transformações aparece em “Bem Bolado”, faixa que apresenta a necessidade de se reconstruir. A mudança de perspectiva sobre as ruas e sobre as próprias experiências acompanha um período de autoanálise. Ao explicar o que precisou reconstruir, Nicius aponta para a descoberta de uma certa “maldade”, entendida como uma nova percepção das relações e do funcionamento do mundo.


“Quando falo disso, falo muito da transição entre um jovem e um adulto. Você vê tudo o que já estava na sua vida, mas agora com outros olhos. Uma certa sagacidade acontece. E isso teve muito a ver com fazer dinheiro, trabalhar e me envolver mais com o rap também.”

SaveClip.App_765263220_18367608940214112_6174722302965286470_n.jpg

Entre o destino e as escolhas

Em “Direção”, Nicius leva a discussão para a ideia de destino. A faixa reúne a busca por um novo caminho, o desejo de serenidade e a vontade de ter dinheiro. Uma referência a Avatar: A Lenda de Aang, especialmente ao diálogo entre Zuko e Iroh, introduz uma pergunta que atravessa a trajetória do artista: até que ponto escolhemos nosso destino e até que ponto ele nos é imposto?


Em “Sem Volta”, a reflexão ganha outra formulação: “Seu destino são suas escolhas”.

 

A música também reconhece a possibilidade de se perder, como alguém que se torna estrangeiro dentro do próprio ninho. Ao falar sobre esses temas, Nicius relaciona a composição a um período de transformação pessoal, sem atribuir tudo a um único acontecimento.


“Vem e não. Veio desse momento de transformação de que falei. Acabei perdendo dois amigos
próximos por escolhas malfeitas minhas e, desde então, isso me serviu para uma autoanálise, na
qual percebi que sou uma pessoa que gosta das mudanças.”


A perda dos amigos contribuiu para que revisasse as próprias atitudes. Ele também identifica uma disposição contínua para experimentar outras possibilidades: conhecer pessoas, fazer diferentes estilos musicais, visitar lugares novos e procurar outros caminhos.

“Eu estou sempre nessa busca, e me encontrar acho que seja isso: sempre estar na busca.”

 resume Nicius

Criar outro mundo para falar deste

Se as letras partem de experiências reconhecíveis, o universo visual de ADAC segue outra direção. A narrativa apresenta abduções, alienígenas e outros planetas. A distância entre o que se ouve e o que se vê foi intencional.


Nicius explica que queria provocar uma ruptura entre a música e sua representação visual.

 

“As coisas que são ditas no álbum são todas verdades, em algum nível. Então, no visual, quis ir para um lado totalmente lúdico, criar uma história, trabalhar com algo que não existe, mas, ao mesmo tempo, tentei ligar esses pontos.”


Quando questionado sobre o que consegue fazer nesse universo que talvez não conseguisse ao falar diretamente da própria vida, Nicius responde:

 

“Aqui acho que tudo. Ir para o espaço, por exemplo, não consigo me ver fazendo isso nem no cenário mais otimista. Parece tão distante, não só ele, mas até a possibilidade de acessá-lo”.

​

A construção desse mundo se apoia em referências como Rick and Morty, Hora de Aventura e Planeta dos Abutres, além do interesse do artista por ficção científica e pela imaginação do futuro. O repertório inclui ainda Avatar: A Lenda de Aang, Cyberpunk, Ele de As Meninas Superpoderosas e o jogo Fogo e Água.


A estética remete às imagens tridimensionais dos consoles PlayStation 1 e PlayStation 2. A identidade visual, creditada a Gustavo Coutinho e Vinícius Chermont, contribui para dar unidade à narrativa.


Acompanhados em sequência, os visualizers contam a história de um humano abduzido por uma banda extraterrestre, que passa a fazer música em outros planetas e retorna à Terra depois de cumprir sua missão artística. As imagens expandem as canções para uma narrativa audiovisual própria.

SaveClip.App_746842689_18364535080214112_5534610862680903306_n.jpg

A paciência também faz parte da criação

A construção de um projeto com tantas camadas exige coordenar etapas e trabalhar com outras pessoas. Ao ser perguntado sobre o que aprendeu fora da música e que modificou sua maneira de compor, Nicius destaca a paciência.


“Precisei lidar com essas esperas da melhor forma. E hoje isso me ajuda a construir música de um jeito diferente, porque dou mais tempo para a criação dela, em vez de tentar finalizá-la rapidamente.”

Uma conversa que não estava planejada

Uma das passagens mais íntimas do disco aparece logo na abertura, em “Como Vai Você? (Intro)”. A faixa traz uma conversa com a mãe de Nicius, que demonstra preocupação com o estado emocional do filho.


Mas a gravação não nasceu como parte do plano original. Ao ser perguntado por que a conversa precisava estar ali, Nicius questiona a própria formulação da pergunta:

 

“Achei engraçada a forma como formulou essa pergunta. Na verdade, não precisava; aliás, ela nunca esteve”.


Durante aproximadamente dois anos de produção, a intenção era utilizar um áudio de Chorão, com uma mensagem semelhante, retirado de um discurso feito em um show. Nos últimos dias, Nicius descobriu que não poderia usar aquela gravação e precisou encontrar uma alternativa.


“Eu já tenho a mania de salvar alguns áudios para usar em músicas, então busquei alguns com a minha mãe, pois sabia que era a única coisa que podia substituir.”


Entre os arquivos guardados, encontrou uma conversa específica, registrada em um dia em que não estava bem. Naquele momento, a mãe havia lhe dito as palavras que acabaram integrando a introdução. “Assim acontece”, conclui.

Antes de assinar contratos

A autonomia é central para entender o título do disco. Nicius conta que escolheu o nome porque sentia estar construindo um projeto especialmente consistente dentro do rap.

​

“Esse título foi escolhido porque eu sentia que estava montando um projeto muito forte dentro do rap. E ainda acredito nisso.”


O artista destaca a estrutura que conseguiu desenvolver: um disco com começo, meio e fim, referências a animações, curta-metragem, clipes, documentário, uma narrativa própria para os personagens e uma banda formada pelas pessoas que cantaram no projeto.


“Então, acho que, pela mão de obra que consegui fazer de forma totalmente independente e pela criatividade de tudo isso, com as pessoas envolvidas, senti que estava provando para mim e para os outros o que consigo fazer antes de assinar contratos.”


O título não representa uma recusa ao mercado, mas a vontade de demonstrar sua capacidade de desenvolver uma obra com identidade e diferentes frentes de execução antes de negociar os próximos passos.


Essa posição não elimina as questões materiais da carreira. Em faixas como “Direção”, “A Cor do Sol” e “Algumas Coisas”, o dinheiro aparece ao lado do desejo de tranquilidade e de uma casa perto do mar. A ambição financeira convive com a necessidade de preservar a liberdade de criação.


Quando perguntado sobre o que não queria perder ao pensar em carreira, dinheiro e mercado, Nicius recorre a uma frase de MC Marechal:

 

“A música não deixa eu mentir É isso que não quero perder. Sempre tem que ser sincero, de mente, de alma e de coração.”


A sinceridade aparece como um princípio para orientar suas escolhas artísticas enquanto a carreira se desenvolve.

FOTO 1.jpg

O que fica depois da viagem

Apesar da narrativa espacial, o território de Nicius continua presente. Em “Algumas Coisas”, surgem referências às ruas onde as armas fazem parte da paisagem e à possibilidade de observar o mundo de cima da laje. Em “Até O Diabo Tem Caneta”, expressões como “um conterrâneo” reafirmam a relação com o lugar de onde veio.


Em “Feliz Pelas Palavras (Interlúdio)”, a frase “todo sucesso seu e meu é nosso” amplia a ideia de realização individual. Já “De Coração (Outro)” aborda a capacidade da arte de inspirar outras pessoas a criar, fazer o bem e acreditar em alguma coisa.
Antes de Assinar Contratos parte da intenção de provar o que um artista independente consegue construir e percorre temas como amadurecimento, destino e liberdade criativa.

 

No fim, a viagem espacial não apaga as experiências que deram origem ao disco: ela oferece a Nicius outra linguagem
para organizá-las e compartilhá-las.

Confira as últimas colunas

BUDAH 06_Cred Mateus Aguiar.jpg

Quando a noite deixa de ser cenário e se transforma em linguagem

Por Isabela Rodrigues

Como o rapper Vandal submerge a própria linguagem espiritual no novo álbum VANGUARDAH

Se eu to vivo aqui é porque a arte tem um propósito comigo

Por Alicia Coura

O não tão novo mapa do rap brasileiro

O não tão novo mapa do rap brasileiro

Por Madu Cardoso

bottom of page