
Foto por Mateus Aguiar
Quando a noite deixa de ser cenário e se transforma em linguagem
Existe uma pergunta que atravessa praticamente toda a história da humanidade.
Por que olhamos tanto para a Lua?
A resposta mais imediata costuma apontar para a astronomia, para as marés ou para o fascínio que um corpo celeste desperta desde as primeiras civilizações. Mas essa explicação ignora um detalhe importante: durante grande parte da história, a Lua nunca foi observada apenas como um objeto no céu. Ela era observada porque ajudava a organizar aquilo que acontecia na Terra.
Seus ciclos foram utilizados na construção de calendários, na organização de práticas agrícolas e na realização de rituais. Com o passar do tempo, essa função prática passou a conviver com outra, simbólica. A Lua entrou em mitologias, religiões, pinturas, poemas e músicas como uma imagem recorrente de transformação, desaparecimento e retorno. Ainda utilizamos expressões como “fase” e “ciclo” para explicar mudanças que acontecem muito longe do céu.
Talvez seja por isso que ela continue aparecendo na arte. E talvez seja exatamente por isso que Budah tenha escolhido esse símbolo para construir Frequência Lunar.
21 de agosto de 2026

A questão, porém, não é entender o que a Lua significa. A questão é entender por que ainda precisamos dela para falar de nós mesmos.
Em Frequência Lunar, essa relação não permanece restrita ao título. A construção do projeto parte de uma noite dividida em diferentes momentos, com músicas associadas a horários que avançam do pôr do sol até a madrugada. A essa passagem, Budah acrescenta outra camada ao relacionar as fases do álbum às regiões grave, média e aguda do som. Lua, tempo e frequência passam a integrar uma mesma estrutura, na qual a mudança de atmosfera também é acompanhada por uma mudança musical.
Embora o R&B permaneça como uma referência importante na trajetória de Budah, Frequência Lunar amplia o repertório sonoro ao incorporar drill, ragga, house, trap e outras aproximações. Durante a concepção do projeto, a artista falou sobre a necessidade de “recalcular a rota” e sair de um lugar de segurança musical. A percepção de que existem momentos diferentes para ouvir R&B também ajuda a localizar essa escolha: se o álbum atravessa diferentes horas e atmosferas de uma noite, o gênero não precisa responder sozinho por todas elas.
A associação entre frequência e emoção, entretanto, pertence ao campo da criação artística e não estabelece uma correspondência científica direta. As pesquisas do psicólogo Patrik Juslin ajudam a estabelecer essa distinção. O modelo BRECVEMA reúne mecanismos envolvidos na resposta emocional à música, como sincronização rítmica, contágio emocional, memória episódica e expectativa musical. A experiência da escuta não pode, portanto, ser explicada apenas por uma característica acústica isolada; contexto, memória e respostas corporais também participam daquilo que uma música pode provocar.

Por dentro de Frequência Lunar
Dentro do álbum, graves, médios e agudos funcionam menos como códigos emocionais universais do que como parte de uma organização sonora que acompanha diferentes regiões da noite. É na passagem entre as faixas que essa proposta começa a adquirir forma musical.
SUA FAVORITA, com AJULIACOSTA e Franco, The Sir!, inicia esse percurso a partir da conquista e dos espaços alcançados. C'EST LA VIE preserva parte dessa dimensão exterior, enquanto VAMPIRA, ao lado de Pabllo Vittar, modifica sua atmosfera. A aproximação com o drill torna a produção mais densa e utiliza outra pulsação para construir o desejo, acompanhando a entrada do álbum em uma região mais noturna.
A passagem para SALTO 15 mantém a sensualidade no centro, mas modifica sua linguagem. Com IZA, a aproximação com o ragga altera a pulsação e produz uma presença mais expansiva. Em SKIN AFROPATY, a transformação ocorre novamente, desta vez aproximando a pista da afirmação da beleza negra. A sequência demonstra que a diversidade musical do álbum não opera apenas como uma coleção de gêneros. Drill, ragga e house modificam a forma como temas próximos são apresentados.
Essa relação entre mudança sonora e representação se torna mais evidente quando SUA FAVORITA é colocada em diálogo com VIDA DE ARTISTA e VIP (ninguém te conhece). Na abertura, o reconhecimento está relacionado à conquista; em VIDA DE ARTISTA, ao lado de Tasha & Tracie, ele já integra a experiência cotidiana da exposição pública. VIP, com Duquesa, introduz uma contradição importante: ser reconhecido o suficiente para ocupar determinados espaços não significa necessariamente ser conhecido para além da imagem que circula publicamente.
É a partir dessa tensão que as formulações de Carl Gustav Jung sobre Persona e Sombra oferecem uma possibilidade de leitura. Na psicologia analítica, a Persona corresponde à dimensão social através da qual o indivíduo se relaciona com a coletividade, enquanto a Sombra inclui aspectos que não foram plenamente incorporados à identidade consciente. Os conceitos permitem observar os limites de uma identidade construída apenas a partir daquilo que se torna reconhecível.
Essa questão ganha força em INTUIÇÃO, SUBMUNDO e QUEBREI SUA CASA. A primeira trabalha com uma percepção que antecede a certeza racional; SUBMUNDO desloca a narrativa para aquilo que existe abaixo da superfície; e QUEBREI SUA CASA introduz a raiva como uma dimensão que impede uma interpretação excessivamente conciliadora sobre a ideia de integração.
O contraste com as faixas anteriores é fundamental. A autoestima construída em SKIN AFROPATY não elimina a possibilidade da raiva, assim como a sensualidade de SALTO 15 não contradiz a interioridade presente em INTUIÇÃO. Da mesma maneira, a exposição de VIDA DE ARTISTA não resolve a distância entre reconhecimento e conhecimento apresentada em VIP. Cada estado ocupa um espaço diferente dentro do projeto sem precisar invalidar os demais.
É nesse ponto que Patricia Hill Collins amplia a análise. Em Black Feminist Thought, a socióloga discute como determinadas representações de mulheres negras operam como imagens de controle e coloca a autodefinição como uma dimensão fundamental para confrontá-las. Nem tudo aquilo que alguém administra em sua própria imagem nasce exclusivamente de uma escolha individual. Raça, gênero e relações de poder também participam das condições sob as quais determinadas características são interpretadas. MEU CRIME É EXISTIR amplia, portanto, a discussão proposta pelo álbum: a possibilidade de mostrar diferentes dimensões de uma identidade também depende de quem possui o poder de defini-la.

As colaborações acrescentam outra dimensão a essa construção. Os feats também acompanham justamente algumas das principais mudanças de atmosfera do projeto. Pabllo Vittar está presente quando VAMPIRA leva o desejo para uma produção marcada pelo drill; IZA participa da transformação dessa sensualidade em SALTO 15; Tasha & Tracie entram quando a vida pública se torna assunto em VIDA DE ARTISTA; Duquesa divide a contradição entre visibilidade e intimidade em VIP (ninguém te conhece); e Vita participa de SUBMUNDO, quando o álbum se aproxima de uma região menos exterior.
A recorrência demonstra que parte das transformações de Frequência Lunar acontece justamente no encontro com outras vozes. Cada participação acrescenta repertório, presença e perspectiva sem transformar a convidada em extensão de Budah. O feat deixa de funcionar apenas como adição de uma segunda voz e passa a integrar a arquitetura do álbum.
Quando PONTO MAIS ALTO retorna à trajetória de Budah no encerramento, o caminho entre Vitória e os espaços ocupados pela artista ganha outro significado depois de um disco atravessado por diferentes sonoridades, formas de exposição, conflitos e encontros. O ponto mais alto e o submundo podem coexistir dentro da mesma obra, assim como o R&B e as experimentações sonoras, a exposição e a intimidade, a autoestima e a raiva.
A pergunta apresentada no início encontra, então, no próprio álbum uma resposta possível. A Lua permanece recorrente na arte não apenas porque representa mudança, mas porque oferece uma imagem na qual mudança e permanência podem existir simultaneamente.
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