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Um álbum pode sobreviver ao tempo?

Como Zarastruta desafia o imediatismo dentro do rap atual

Por Lavínia Calze

Publicado em 14 de Maio de 2026

Para o fundador da psicanálise, Freud, a ideia de atemporalidade está ligada à permanência, onde experiências, sensações coexistem dentro do indivíduo com o passar do tempo.

Em uma indústria musical marcada pela constante renovação, permanecer parece algo inalcançável. O álbum Atemporal do Zarastruta caminha em direção a essa resistência, e eu vou te explicar o porquê. O projeto composto por 10 faixas apresenta três principais características que transformam a experiência musical singular no âmbito do rap atual.

LÍRICA

O álbum se constrói a partir da ideia de um tempo suspenso, em que as letras parecem não se prender a um momento específico. Capaz de representar entre os versos a natureza transitória da vida, expressando a impermanência do atual. 

Se o período não é um foco centrado, o protagonismo individual também se dissolve, questionando a própria insignificância diante dos outros?

 

Dentro da atemporalidade, aborda as vivências constantes do ser humano, a autocobrança surge como uma das principais. Dilemas internos capazes de impedir a permanência nos próprios sonhos e objetivos, porém acompanhados de esperança e exigência na própria história da sua vida. Por mais que haja empecilhos, a resistência ainda é um caminho para realizar um milagre.

Nosso álbum é afirmativo, um acidente planejado, fruto do âmago, visceral_edited.jpg

Um dos pilares do projeto, é passar originalidade. O verso “As águas que eu me banho é de remar contra a maré” conceitua essa ideia . Quando você permite não se adequar dentro de um padrão imposto por uma grande mídia isso torna a sua arte exclusiva. A ponto de não encontrar um álbum que se iguale esteticamente ao seu, trazendo benefícios, tal qual a possibilidade de ser atemporal, mas malefícios como uma falta de visibilidade por pouca adequação do público a algo diferente 

 

Uma observação cativante que as faixas trazem, é a importância de transformar através da mensagem que você deseja passar, porém sendo um impacto que não se prende somente a quem deseja ouvir. Se “Gritar na bolha é a mesma coisa que falar sozinho”, a sensação ilusória de uma repercussão é o problema, porque faz acreditar que existe mudança, e no fim das contas nunca rompe os próprios limites. 

 

Assim, a lírica se estabelece como o primeiro elemento que sustenta a atemporalidade do projeto.

 

Faço mais barras, minhas rimas são atempo, eu surfo do tempo

Minhas rimas são atemporal

AUDIOVISUAL

O audiovisual acompanha a responsabilidade da atemporalidade presente nesse álbum. Consolidada criativamente por Eduardo da Matta, Dara Meana e Mateus Cony, o projeto apresenta inúmeras referências e conceitos que permitem um olhar refinado sobre “Atemporal”.

Uma ideia de algo não pertencente a essa linha do tempo, uma espécie de realidade paralela, em que a ganância atingiu seu limite, transformando paisagens naturais em minérios de ferro, e a devastação parte da normalidade, como explica Eduardo. Por mais que ainda seja apenas um cenário fictício, gera no telespectador uma sensação de estranhamento, tal qual um vislumbre do que o planeta pode se tornar.

Alusões a artes como Duna 2, Deus e o Diabo na terra do Sol, Blade Runner 2049 e até o clipe Element do Kendrick Lamar somam para criar essa estética. 

Em Rico, houve uma referenciação a arte e captação do artista de vanguarda japonês, Kansuke Yamamoto por exemplo. Com o objetivo de explorar as diferentes relações do sujeito com o espaço que está inserido. Temática essa muito abordada no álbum.

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A capa do álbum, busca acessar a desconfiguração do tempo e da materialidade, a ausência de um parâmetro de início e término cronológico tornado-se tudo e nada simultaneamente. Através do papel de observador e observado acontecendo ao mesmo tempo isso se torna possível.

Transformando assim a experiência em muito mais que um vídeo, e sim uma crítica social, uma reflexão sobre o indeterminado, uma denúncia sobre o ser humano e o imediatismo atual.

PRODUÇÃO MUSICAL

A produção musical assinada por Juce Rock além de ser de alta qualidade cria um ambiente de envolvimento musical excepcional. O álbum exigia um universo único, os beats entregam juntamente com a lírica essa proposta.

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A sinergia entre os artistas promoveu um equilíbrio notável dentro das músicas, permitindo assim que cada atmosfera sonora tenha um sentimento. Em Hayabusa, por exemplo, remete se uma ideia de velocidade e movimento, consequentemente se percebe um ritmo mais acelerado e hi-hats mais trabalhados que causam uma sensação de agilidade. Ou até em Bolha, que contém um uma lírica mais densa, o beat se desenvolve em sub-graves acompanhando essa esfera. Detalhes pequenos de produção proporcionam ao ouvinte uma experiência singular ao que se encontra nos dias de hoje. Finalizando assim os três âmbitos mais importantes para provar a atemporalidade desse álbum.

Assim, compreende se como a atemporalidade se afirma não em uma única características mas sim em união desses três pilares que trabalham em conjunto na construção dessa identidade artística. O álbum não busca a permanência através do hype momentâneo ou a adaptação às tendências atuais. Sua força está na contramão, pois permite a adequação no que eles mesmo acreditam.

Em um cenário acelerado e descartável, Zarastruta transforma resistência em arte.

Porque aquilo que é atemporal não pertence somente ao agora, permanece mesmo depois dele. 

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Lavínia Calze

Laví gosta muito da cultura hip hop e de tudo que envolve esse universo. 
Curte ler, escrever e acompanhar de perto o cenário, principalmente o rap nacional. 
Pra ela, não é só música, é uma forma de expressão, de se identificar e de entender o mundo.

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