
Ser uma mulher que se escolhe é modo de sobrevivência
O Novo Testamento, da AJULIACOSTA, é um chamado para as mulheres se priorizarem cada vez mais
Por Mari Galvão
Publicado em 05 de fevereiro de 2026
No Novo Testamento, álbum lançado em 2025 pela AJULIACOSTA, as mulheres se priorizam e isso não é só empoderamento feminino, é um modo de sobrevivência. Olhando para a história, a mulher foi construída como “o outro”, nunca como sujeito principal. Se escolher, então, é um movimento de ruptura: sair do lugar de objeto e ocupar o centro da própria narrativa.
“Tô fechada comigo, me escolho e vou pra cima”
“Fiel a mim até o fim”
“Pode ir embora, filho, eu fico comigo”
“Quando eu me escolhi, deixei pra trás a incerteza”
Essas falas, quando observadas fora do campo artístico, dialogam com debates consolidados nas ciências sociais sobre gênero, subjetividade e poder.
Historicamente, a posição social da mulher foi construída a partir da negação de sua centralidade. Simone de Beauvoir, em O Segundo Sexo, formulou a ideia de que a mulher foi constituída como “o outro”, isto é, definida em relação ao homem e não como sujeito autônomo.

Essa construção não se dá apenas no plano simbólico, mas se materializa em expectativas sociais, papéis de gênero e formas específicas de socialização. A mulher, nesse contexto, foi associada ao cuidado, à manutenção dos vínculos, à renúncia e à responsabilidade emocional pelo outro.
Mulheres são historicamente incentivadas a priorizar relacionamentos, a estabilidade das relações e as demandas alheias, muitas vezes em detrimento de sua própria autonomia.
Quando uma mulher se desloca desse lugar, ao decidir ficar sozinha, encerrar relações ou se colocar como prioridade, essa atitude pode ser interpretada socialmente como egoísmo ou falha moral. A sensação de culpa associada a esse movimento é algo produzido socialmente.
Do ponto de vista sociológico, escolhas individuais não ocorrem no vazio. Elas se dão dentro de estruturas que delimitam possibilidades e riscos. Autoras como Heleieth Saffioti demonstraram como a desigualdade de gênero se articula com relações de poder concretas, incluindo dependência econômica, violência simbólica e violência física. Assim, a autonomia feminina não é apenas uma questão subjetiva, é um fator que incide diretamente sobre condições materiais de existência e sobrevivência.
Os dados recentes sobre violência de gênero no Brasil reforçam esse contexto estrutural. Em 2025, o estado de São Paulo registrou 266 casos de feminicídio, o maior número desde o início da série histórica, em 2018. Isso significa que, ao longo do ano, uma mulher foi assassinada em média a cada 33 horas.

Nesse cenário, narrativas culturais, como a música, podem ser lidas como expressões de experiências situadas historicamente.
Quando AJULIACOSTA fala sobre permanecer consigo mesmas ou se retirar de relações, isso se torna uma representação simbólica de processos amplos: a renegociação dos papéis de gênero, a disputa por autonomia e a recusa de posições historicamente atribuídas às mulheres.




