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O BRASIL COMO CAMPO DE BATALHA SONORO EM

Tambores, Cafezais, Fuzis, Guaranás e Outras Brasilidades

Por Isabela Rodrigues

Publicado em 09 de Junho de 2026

Poucos discos recentes do rap nacional conseguem transformar música em interpretação histórica com a mesma ambição de Tambores, Cafezais, Fuzis, Guaranás e Outras Brasilidades, de FBC e BAKA. Mais do que um álbum, a obra se apresenta como um ensaio político-musical sobre a formação do Brasil, utilizando o rap, o hardcore, a percussão afro-brasileira para investigar as contradições que moldaram o país

O projeto

O ponto de partida está no próprio título. Longe de ser apenas uma sequência de imagens brasileiras, os elementos escolhidos funcionam como categorias históricas. Os tambores remetem à ancestralidade africana, à preservação da memória e às formas de resistência construídas pela população negra ao longo dos séculos. Os cafezais evocam o trabalho escravizado, a concentração fundiária e a riqueza produzida pela exploração econômica. Os fuzis simbolizam a violência utilizada para proteger essa estrutura, seja durante a colonização, nas ditaduras ou nas formas contemporâneas de repressão estatal. Já os guaranás representam a transformação da cultura popular em produto, a mercantilização da identidade nacional e a conversão da brasilidade em marca de consumo.

 

A partir dessa estrutura simbólica, o álbum estabelece um diálogo direto com as reflexões presentes em As Veias Abertas da América Latina, de Eduardo Galeano. Publicado em 1971, o livro tornou-se uma das principais interpretações críticas da história latino-americana ao demonstrar como a riqueza produzida na região foi sistematicamente direcionada para atender interesses externos enquanto a população local permanecia submetida à desigualdade. Quando Galeano escreve que "nossa riqueza sempre gerou nossa pobreza", ele sintetiza uma lógica que atravessa toda a narrativa construída por FBC.

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Dentro do disco, os cafezais não aparecem apenas como paisagem rural. Eles funcionam como memória econômica. O café foi um dos principais motores da formação da riqueza brasileira entre os séculos 19 e 20, sustentado pelo trabalho escravizado e posteriormente por estruturas agrárias profundamente desiguais. Ao utilizar essa imagem, o álbum recupera uma discussão que permanece atual: quem produz a riqueza e quem se beneficia dela?

 

Essa questão se aprofunda quando observamos a importância política da terra dentro da obra. O lançamento do single “Bandido Bom”, em 17 de abril, não parece operar apenas como uma escolha de calendário, mas como uma marca simbólica. A data corresponde ao Dia Internacional da Luta Camponesa, criado em memória ao Massacre de Eldorado dos Carajás, ocorrido em 1996, no Pará, quando 21 trabalhadores rurais ligados ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) foram mortos durante uma manifestação pela desapropriação da Fazenda Macaxeira.

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Foto: J. R. Ripper/MST

É justamente nesse contexto que os fuzis assumem seu significado mais contundente. Eles não representam apenas armas. Segundo Galeano, a violência nunca aparece como exceção, mas como instrumento de manutenção econômica. No álbum, os fuzis cumprem exatamente essa função simbólica

Essa dimensão histórica se materializa também na faixa, "Canudos", por exemplo, que conecta diretamente o presente às guerras internas que marcaram a formação do Estado brasileiro. Ao recuperar a memória da Guerra de Canudos, o álbum relembra que comunidades organizadas fora da lógica dominante frequentemente foram tratadas como ameaças. A história muda de cenário, mas preserva padrões semelhantes de repressão.

 

No entanto, a força do projeto não está apenas no conteúdo das letras. Ela está, sobretudo, na forma como essas ideias são transformadas em linguagem sonora.

 

Musicalmente, o álbum representa uma das movimentações mais ousadas da carreira de FBC. Em vez de permanecer exclusivamente dentro das convenções do rap contemporâneo, o artista incorporou elementos do rock e hardcore. O resultado é um som marcado por tensão permanente.

Essa escolha possui significado histórico. O hardcore surgiu como uma linguagem de urgência e confronto. O rap nasceu como ferramenta de denúncia e documentação social. Quando essas duas tradições se encontram, produzem uma estética de enfrentamento. O álbum utiliza essa colisão de gêneros para traduzir sonoramente os conflitos que descreve.

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Ao mesmo tempo, a obra estabelece uma ponte importante com a música popular brasileira. A presença de referências a João Bosco não funciona como homenagem nostálgica, mas como continuidade de uma tradição crítica. Canções como "Gênesis", "O Ronco da Cuíca" e "Tiro de Misericórdia" já carregavam reflexões sobre desigualdade, violência e identidade nacional. Ao reinterpretar essas referências dentro de uma linguagem associada ao rap político e ao hardcore, FBC aproxima diferentes gerações de artistas que utilizaram a música para questionar o país.

 

Mas o álbum vai além da denúncia. Seu aspecto mais sofisticado está em compreender que a exploração contemporânea não acontece apenas sobre recursos naturais ou trabalho. Ela também ocorre sobre a cultura, a imagem e a identidade. Se a América Latina descrita por Galeano exportava ouro, prata, açúcar e café, o Brasil contemporâneo também exporta narrativas, símbolos e produtos culturais. Nesse cenário, o guaraná torna-se tão político quanto o cafezal.

Por isso, Tambores, Cafezais, Fuzis, Guaranás e Outras Brasilidades se destaca como uma das obras conceituais mais relevantes do rap brasileiro recente. O álbum não procura oferecer uma definição simples do país. Pelo contrário: ele revela suas contradições. Mostra um Brasil onde ancestralidade e mercado coexistem, onde resistência e mercadoria caminham lado a lado, e onde a riqueza continua convivendo com as desigualdades que ajudou a produzir.

Ao final, a sensação não é a de ter ouvido apenas um disco, mas de ter percorrido um arquivo histórico em forma de música. Um arquivo onde os tambores ainda ecoam, os cafezais continuam produzindo, os fuzis permanecem apontados e os guaranás seguem sendo vendidos. Um arquivo que lembra que muitas das veias abertas descritas por Galeano continuam atravessando o presente brasileiro — apenas sob novas formas.

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Isabela Rodrigues

Design gráfico e criadora de conteúdo,Isa é apaixonada por música, arte e cultura, dentro do RAP Nacional.

Ela acredita que o RAP é a peça fundamental para a educação e criação do senso crítico.

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