
Foto por @danedalastra
O encontro do rap brasileiro com a cultura soundsystem
O rap brasileiro nasceu nas ruas. Antes das grandes plataformas digitais, dos festivais e das turnês internacionais, podia-se dizer que o gênero funcionava era uma espécie de “jornal das periferias”, narrava conflitos, denunciava desigualdades e transformava experiências individuais em relatos coletivos.
Décadas depois, enquanto o rap ocupa cada vez mais espaços dentro da indústria musical, parte da cena encontra no soundsystem uma maneira de recuperar uma relação mais próxima com a comunidade, segundo o artista e compositor, Jhayam.
12 de agosto de 2026

Foto por Premier King
Para Jhayam, o crescimento do soundsystem em São Paulo representa um reencontro do rap com uma de suas principais características, a ocupação dos territórios.
“Eu sempre disse que o sound system ia trazer o rap de volta para as quebradas.”
A frase não se refere apenas à música, mas a uma forma de organização cultural. Criados na Jamaica a partir da montagem de grandes caixas de som para festas comunitárias, os sound systems chegaram ao Brasil e, nos últimos anos, passaram a ocupar praças, ruas e espaços independentes nas periferias de São Paulo. Na visão de Jhayam, esse movimento recupera uma dimensão comunitária que sempre esteve presente no hip-hop.
Da voz da periferia ao mercado musical
A história do hip-hop é marcada pela relação entre música e território. Nos Estados Unidos, o movimento surgiu no Bronx dos anos 1970 como uma resposta cultural de jovens negros e latinos diante de um cenário de desigualdade, abandono urbano e violência. No Brasil, especialmente a partir dos anos 1980 e 1990, o rap também se consolidou como uma ferramenta de denúncia e representação das periferias.
Grupos como Racionais MC’s e Facção Central, transformaram o cotidiano das quebradas em narrativa musical, criando uma linguagem própria para falar sobre racismo, violência policial, desigualdade social e sobrevivência.
Com o passar dos anos, porém, o rap ganhou novos públicos, ampliou seu mercado e passou a ocupar espaços antes distantes da cultura hip-hop. Para alguns artistas da cena independente, esse processo trouxe uma questão: como manter a conexão com as comunidades que deram origem ao movimento?
É nesse ponto que Jhayam enxerga o papel dos sound systems. “Teve uma época em que o rap ensinou os boys a falar gíria. Depois, ele entrou pesado no mainstream e deixou de ser uma cultura de periferia.” A análise do artista não representa uma crítica ao crescimento do gênero em si, mas uma reflexão sobre as transformações provocadas pela profissionalização do rap.

Foto por Premier King
O sound system como espaço de autonomia
Diferentemente de um show tradicional, o sound system funciona como uma estrutura própria de produção. Os coletivos constroem seus equipamentos, organizam os eventos e estabelecem uma relação direta entre artistas e público.
Esse modelo, segundo Jhayam, aproxima a cena da lógica comunitária que marcou o início do hip-hop. “O sistema de som é uma coisa feita de nós para nós. A gente monta as caixas, produz, grava, organiza. Não depende necessariamente da indústria.”
No Brasil, a cultura dos sistemas de som ganhou força principalmente a partir dos anos 2000, com coletivos dedicados ao reggae, dub e dancehall. Em São Paulo, iniciativas como o Dubversão Sound System ajudaram a consolidar uma cena que hoje reúne DJs, MCs, produtores e artistas ligados ao hip-hop.
Embora tenha chegado inicialmente a espaços mais centrais da cidade, a cultura passou a circular cada vez mais pelas periferias. “Hoje você olha as datas de sexta, sábado e domingo e tem várias opções de festas de reggae sound system espalhadas por São Paulo. Não é mais uma cultura que você precisa ir para Pinheiros ou Vila Madalena.”

Foto por Miguel de Castro
Entre o rap e o reggae, há uma mesma tradição de resistência
A aproximação entre rap e sound system não acontece apenas pela ocupação dos espaços, mas também pela história compartilhada entre os movimentos.
Antes de influenciar o hip-hop norte-americano, a cultura dos sistemas de som jamaicanos desenvolveu práticas como o toasting, em que Deejays improvisaram mensagens sobre bases instrumentais, uma linguagem que também ajudou a formar a figura do MC.
No Brasil, essa conexão aparece em artistas que transitam entre as duas linguagens. Jhayam cita nomes como Marcelo D2, BNegão, Rael, e o ex-grupo, Pentágono, como exemplos de músicos que incorporam elementos do reggae e da cultura jamaicana ao rap.
O Pentágono, especialmente, é apontado pelo artista como um dos grupos que melhor realizou essa fusão em sua atividade. “Eles conseguiram misturar reggae e rap de uma forma que quem era do rap gostava e quem era do reggae também gostava.”
Essa aproximação também aparece no conceito de ragga muffin, vertente jamaicana que aproximou a musicalidade do reggae das técnicas vocais do rap, incorporando melodias e rimas em uma mesma estrutura.
O futuro do rap passa pela rua
Para Jhayam, o crescimento dos sound systems representa uma possibilidade de reconectar o rap com sua dimensão mais coletiva. Não se trata de substituir uma cena pela outra, mas de recuperar uma pergunta que acompanha o hip-hop desde seu nascimento: para quem e para quê a música é feita?
“No fim, tanto o reggae quanto o rap nasceram da necessidade de um povo conquistar sua própria voz.”
Mais do que uma tendência musical, o movimento revela uma busca por aquilo que sempre esteve no centro do hip-hop: transformar a rua em espaço de expressão.
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