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Lugar certo ou Álibi ideal?

Por Isabela Rodrigues

Publicado em 18 de dezembro de 2025

A julgar pelos princípios básicos da vida em sociedade; liberdade, acesso, educação, moradia e etc. Entre em consenso de que esses direitos deveriam alcançar todos. O problema começa quando a realidade concreta bate de frente com essa promessa. Você Precisa do Álibi, de LEALL, nasce exatamente desse choque.

 

O EP expõe, sem filtro e sem concessões, a perspectiva de quem vive mora dentro do oeste geográfico e fora das estatísticas confortáveis.

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Você Precisa do Álibi

Leall

A escuta funciona como uma travessia entre dois mundos separados por muros sociais e simbólicos. A negritude não aparece como pano de fundo, mas como eixo central da narrativa, especialmente em “Túnel Rebouças”, faixa que apresenta o deslocamento do artista por espaços historicamente negados a corpos como o seu.

 

A faixa não pede permissão nem tenta se adequar, ela expõe o olhar atravessado, o silêncio constrangido e o racismo que se manifesta de forma sutil, porém constante. É a constatação de que subir não significa ser aceito, apenas tolerado.

Como o próprio LEALL afirma em uma conversa com a Correria Comunicação Criativa:

 “É sobre estar acessando esses lugares e o impacto que minha imagem enquanto negro e MC gera na burguesia e nos novos ricos.”

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A negritude não aparece como pano de fundo, mas como eixo central da narrativa juntamente a travessia entre o  mundo social e geográfico, em “Túnel Rebouças”, faixa que apresenta o deslocamento do artista por espaços historicamente negados a corpos como o seu. 

Esta tensão dialoga com o que Edith Piza analisou sobre a igualdade social. Está perspectiva inclusive, posteriormente seria utilizada por Cida Bento, na construção de um dos pilares de seu livro "O pacto da branquitude", ao afirmar que:

 

“A igualdade social é experimentada apenas entre iguais (da mesma classe e raça). Por essa razão, o discurso da igualdade na diferença não contém ‘lógica’ que pode ser constatada no cotidiano.”

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Em seguida vem ‘’Noites Traiçoeiras’’ com MC Luanna, onde o foco se desloca para o peso da responsabilidade que acompanha quem vence vindo da periferia. Aqui, o sucesso não é alívio: é cobrança, é medo de cair, é a obrigação de sustentar não só a própria carreira, mas também expectativas coletivas. A parceria funciona porque os dois falam do mesmo lugar — o da independência forçada, da solidão nas decisões e da consciência de que errar custa mais caro quando você não tem rede de proteção.

“Mulher Brasileira”, com Blanco, surge como um respiro estratégico. A faixa quebra a tensão com um clima mais festivo, mas sem ser vazia: ela celebra o encontro, o desejo e a identidade brasileira como potência, mostrando que alegria também é resistência.

A parte final do EP mergulha na introspecção. “Quem Sabe Um Dia” traz LEALL em estado vulnerável, lidando com dúvidas internas, inseguranças e a ansiedade de quem ainda não se sente inteiro apesar das conquistas.

Essa instabilidade encontra resposta em “Todo Menino É Um Rei”, uma das faixas mais simbólicas do projeto. Ao falar das crianças negras em espaços brancos, LEALL reafirma sonhos como direito, não exceção. O drill que vira boombap reforça essa dualidade: dureza e esperança coexistindo, lembrando que sobreviver também é imaginar futuros possíveis.

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O encerramento com “Era Digital” desacelera tudo. A faixa convida o ouvinte a repensar o ritmo imposto pela lógica da produtividade e da exposição constante. Os diálogos e o instrumental jazzístico criam um clima de pausa e reflexão, escancarando o conflito entre querer mais e precisar de menos. LEALL não oferece respostas prontas, ele expõe o cansaço, o excesso e a dificuldade de desligar.

 

Você Precisa do Álibi termina como começou: honesto, incômodo é necessário. Um EP que não pede aclamação de imediato, mas sim uma reflexão profunda, doa a quem doer. 

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Isabela Rodrigues

Design gráfico e criadora de conteúdo,Isa é apaixonada por música, arte e cultura, dentro do RAP Nacional.

Ela acredita que o RAP é a peça fundamental para a educação e criação do senso crítico.

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